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Um mar que vale a pena proteger: Tarrafal e Monte Trigo vão ter a sua Área Marinha Protegida?

Crédito da foto: Charlotte Riddick
Crédito da foto: Charlotte Riddick

No dia 21 de abril de 2026, a Sala de Reuniões do Instituto de Emprego e Formação Profissional em Porto Novo transformou-se em um espaço de discussão. Diversas instituições, ONGs, autoridades e representantes das comunidades de Tarrafal e Monte Trigo de Santo Antão reuniram-se para decidir o futuro da área marinha de Tarrafal, Monte Trigo e Poss d´Pau. O resultado desta discussão foi excelente: todos acordaram na criação de uma Área Marinha Protegida (AMP) entre Monte Trigo e Tarrafal, e o desenvolvimento de uma OECM (Outras Medidas Eficazes de Conservação) na zona de Poss d’Pau.


Por que é tão importante esta decisão?

Tarrafal, Monte Trigo e Poss d’Pau são lugares únicos na ilha de Santo Antão, que albergam uma rica variedade de vida selvagem e marinha. As suas praias, incluindo a Praia Grande, o Curralinho, a Misinha, a Bernard e a Gurgui, constituem importantes locais de nidificação para as tartarugas marinhas, enquanto as falésias circundantes servem de habitat a aves marinhas como as pardelas, as gaivotas e os rouxinóis-dos-juncos.

 

Ao largo da costa, as águas são frequentadas por baleias-jubarte e baleias-piloto, golfinhos e orcas, e sob a superfície encontram-se notáveis ecossistemas de gorgónias e corais negros. Uma baía costeira profunda nas proximidades, com mais de 1 000 metros de profundidade, revelou até novas espécies de peixes e invertebrados, destacando o valor natural excecional da região.


As comunidades locais dependem destas águas para a sua subsistência, incluindo a pesca de pequena escala que alimenta as famílias de Porto Novo e São Vicente, bem como um setor turístico emergente centrado no ecoturismo, nas estadias em casas de família e no mergulho recreativo. A proposta  em questão partiu da própria população local, que depende desta área para a sua subsistência e já demonstra uma forte consciência quanto à sua proteção.


O que significa AMP e OECM?

A AMP (Área Marinha Protegida) oferece proteção legal mais forte, reconhecimento internacional e força perante projetos industriais incompatíveis, como aquacultura intensiva.  ‘OECM’ é um termo que designa Outras Medidas de Conservação Eficazes, para além das AMP, tais como as áreas de gestão das pescas, que representam medidas de conservação que são mais rápidas de estabelecer e mais flexíveis de implementar, que permitem cogestão comunitária imediata.

 

A decisão final refletida numa equilibrada: AMPs no Tarrafal e no Monte Trigo para garantir uma proteção máxima dos ecossistemas únicos, e OECM em Poss d’Pau, uma área adjacente com potencial para maricultura.

 

Desafios e soluções

Foi amplamente discutida a fragilidade da fiscalização marítima, considerada insuficiente pelos participantes, tendo sido identificadas várias soluções práticas.  Entre estas incluem-se: cogestão através de um comité comunitário para ajudar apoiar a fiscalização;

novas legislações que permitam ás associações comunitárias trabalhar ao lado de ONGs na gestão destas áreas e a necessidade de barcos semi-industriais e industriais passarem a utilizar o sistema VMS de sinalização, facilitando a fiscalização.

 

As perspetivas locais foram fundamentais para as discussões. O Presidente da Associação de Pescadores de Tarrafal, o Sr. José, salientou que as práticas de pesca locais em Tarrafal são, em grande parte, sustentáveis, sendo que a maioria dos pescadores recorrem a métodos tradicionais de pesca com linha de mão, em vez de práticas mais destrutivas. Nelson Lopes, um facilitador comunitário, salientou que a maior ameaça provém de fora da zona, nomeadamente da pesca predatória praticada por embarcações provenientes de São Vicente, o que exerce uma pressão crescente sobre os recursos marinhos locais. 

 

Próximos passos:

O impulso por trás da iniciativa está a crescer, com um plano claro a tomar forma. O primeiro passo será a apresentação de uma manifestação de interesse por parte da comunidade e de outras instituições, destacando o seu compromisso comum com a conservação desta área única. Seguir-se-á a elaboração de uma proposta técnica consolidada, apoiada por dados científicos, a apresentar à Direção Nacional do Ambiente.


A nível nacional, o apoio também está a crescer. O Diretor Nacional para a Política Marítima, Anísio Évora, comprometeu-se a levar por diante a proposta, prometendo apresentá-la ao Ministro dos Transportes e Mar e ao Ministro do Ambiente, Acção Climática e Energia. Confirmou ainda o seu apoio à proposta de criação de uma Área Marinha Protegida (AMP) no Tarrafal e no Monte Trigo, e para uma Área Especial de Conservação (AEC) em Poss d’Pau. Em conjunto, estas medidas apontam para um futuro comum, em que a proteção do mar anda de mãos dadas com o bem-estar das comunidades que dele dependem.


Tarrafal e Monte Trigo têm agora o potencial para se tornarem uma Área Marinha Protegida, salvaguardando um ecossistema verdadeiramente único. Mais importante ainda, as próprias comunidades estão conscientes da questão e empenhadas nela, o que constitui uma enorme mais-valia para o futuro destas áreas. Agora, o objetivo é claro: trabalhar em conjunto para proteger o mar, preservar a biodiversidade e salvaguardar as tradições locais, garantindo que os esforços de conservação sejam duradouros e liderados a nível local.



Crédito da foto: Charlotte Riddick

 
 
 

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